As Bruxas de Salém do Mundo Moderno
Em 1692, na pequena vila de Salém, em Massachusetts, dezenas de mulheres foram perseguidas, humilhadas e mortas sob a acusação de bruxaria.
Um medo irracional, alimentado por crenças religiosas rígidas e pelo controle social, levou à histeria coletiva. Aquilo que chamavam de “bruxaria” muitas vezes era apenas o reflexo de mulheres que ousavam ser diferentes — mulheres com opiniões, com conhecimentos sobre ervas, com comportamentos fora dos padrões, com coragem para questionar. Eram queimadas não por seus feitiços, mas por sua liberdade.
Séculos se passaram, e mesmo que não haja mais fogueiras acesas em praças públicas, as chamas da intolerância continuam ardendo — agora disfarçadas.
As bruxas de Salém não morreram. Elas se multiplicaram. Elas são as mulheres do mundo moderno.
Hoje, a perseguição acontece de outras formas: nos julgamentos constantes sobre os corpos femininos, nas críticas sobre a forma como se vestem, se expressam, trabalham ou escolhem não seguir papéis esperados.
As redes sociais se tornaram tribunais virtuais onde mulheres são apedrejadas com comentários, expostas e condenadas por simplesmente existirem fora da moldura que esperam delas.
As religiões, em muitos contextos, ainda servem como instrumentos de condenação. Enquanto pregam amor e compaixão, muitas vezes impõem silêncios, castidades, submissões. Distorcem escrituras para manter a mulher em posição de serva, acusando de pecado aquilo que é autonomia, liberdade e desejo.
A mulher que lidera é soberba. A que se recusa a casar, é egoísta. A que fala alto, é desrespeitosa. A que expõe seus pensamentos, é herege.
A história se repete — não com as mesmas palavras, mas com os mesmos significados.
Ser mulher no século XXI, em muitas partes do mundo, ainda é um ato de resistência. A mulher independente, que escolhe seus próprios caminhos, é vista com suspeita. E talvez seja mesmo — perigosa para um sistema que ainda se assenta sobre o controle dos corpos e da voz feminina.
Mas há uma força ancestral que une essas mulheres. As de ontem e as de hoje. A cada mulher que se recusa a abaixar a cabeça, a cada mulher que decide viver por si e para si, uma nova fogueira se apaga. E um novo feitiço é lançado: o da liberdade.
Porque ser bruxa, no fundo, nunca foi sobre lançar feitiços. Foi — e ainda é — sobre ter coragem de ser mulher num mundo que insiste em puni-las por isso.
Artigo: Irmão Barbosa.
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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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