De Constantino às Igrejas Neopentecostais: A História das Rupturas na Cristandade
A história do cristianismo, ao longo dos séculos, foi menos uma jornada de unidade espiritual e mais uma trilha marcada por insatisfações pessoais, disputas doutrinárias e o surgimento de novas lideranças que, ao invés de reformar suas comunidades de fé, preferiram romper com elas e fundar seus próprios caminhos.
De imperadores a monges, de pastores a empresários da fé, cada ruptura deu origem a novas denominações — muitas vezes mais parecidas com clãs religiosos do que com extensões de uma mesma Igreja.
Constantino e a Igreja Católica
No século IV, o imperador Constantino, ao perceber o potencial político do cristianismo, oficializou a fé cristã no Império Romano. Apesar de não ter fundado diretamente a Igreja Católica, foi crucial para sua estruturação.
Ele rejeitava tradições judaicas que ainda influenciavam o cristianismo primitivo e promoveu uma fusão entre fé e Estado. Sob sua influência, o cristianismo deixou de ser uma fé contracultural e passou a ser uma religião imperial, hierarquizada e ritualística. Teria sido essa uma aproximação divina ou um projeto de poder?
Lutero e a Reforma Protestante
Mais de mil anos depois, Martinho Lutero, inconformado com os abusos da Igreja Católica — especialmente a venda de indulgências e a corrupção do clero — rompeu com Roma. Ao invés de buscar transformação interna, fundou seu próprio movimento, a Igreja Luterana, em 1517.
A insatisfação com as doutrinas católicas e o desejo de retomar a “pureza do Evangelho” deram início à Reforma Protestante, mas também abriram as portas para uma fragmentação sem precedentes da fé cristã.
Calvino e a Igreja Reformada
Na sequência, João Calvino, igualmente descontente com os rumos do luteranismo, criou sua própria corrente: a Igreja Reformada, que originou a Igreja Presbiteriana.
Divergências sobre temas como a Eucaristia e a predestinação levaram Calvino a romper com Lutero e fundar uma nova estrutura eclesiástica — ainda mais rígida e disciplinada. O ciclo se repetia: insatisfação, ruptura e formação de um novo clã.
John Smyth e os Batistas
No século XVII, John Smyth, rejeitando o batismo infantil das igrejas reformadas, decidiu que apenas adultos conscientes deveriam ser batizados. Em vez de tentar convencer suas igrejas de origem, rompeu mais uma vez e iniciou o movimento Batista, com foco na autonomia da igreja local e na liberdade individual. A multiplicação de interpretações e líderes criava um mosaico cada vez mais fragmentado.
John Wesley e o Metodismo
No século XVIII, John Wesley também se viu descontente — agora com o formalismo da Igreja Anglicana. Em busca de uma fé mais viva e prática, fundou o Movimento Metodista. O padrão se repetia: um novo líder, um novo movimento, uma nova denominação. Ao invés de restauração, uma nova separação.
Charles Parham, William Seymour e o Pentecostalismo
No século XX, os norte-americanos Charles Parham e William Seymour observaram que as igrejas protestantes haviam perdido o fervor espiritual. Insatisfeitos com a frieza doutrinária, deram início ao Movimento Pentecostal, centrado em dons espirituais como o falar em línguas e a cura divina. O movimento rapidamente cresceu entre os mais pobres, mas, assim como os anteriores, nasceu do desacordo e da ruptura — e não da unidade.
Igrejas Neopentecostais
Finalmente, a partir da década de 1970, o Brasil viu o surgimento das igrejas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus. Seus líderes, como Edir Macedo, julgavam o pentecostalismo tradicional insuficiente. Rejeitando a teologia do sofrimento, abraçaram a teologia da prosperidade, segundo a qual fé e ofertas trazem saúde, dinheiro e sucesso. Uma nova ruptura, uma nova igreja, uma nova doutrina.
Conclusão: Reforma ou Ego?
Ao observar essa trajetória, não se pode deixar de questionar: será que cada uma dessas “reformas” foi realmente um chamado divino à restauração da fé? Ou seriam expressões do ego humano, ansioso por controle, influência e protagonismo?
A constante insatisfação com o que já existe levou ao surgimento de incontáveis denominações cristãs, muitas das quais se enxergam como as únicas verdadeiras. Essa fragmentação seria mesmo o desejo de Deus, ou apenas a manifestação da vaidade humana em nome d’Ele?
Talvez, mais do que nunca, seja necessário refletir se a fé cristã está sendo edificada sobre a rocha da comunhão e humildade ou sobre os alicerces frágeis da vaidade, do orgulho e da ambição disfarçada de zelo espiritual.
Artigo: Irmão Barbosa.
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