Morra Antes de Morrer: Uma Reflexão Sobre Julgamento, Memória e Libertação
“Morra antes de morrer.” Essa máxima, enraizada em tradições budistas, soa como um paradoxo, mas carrega uma das mais profundas verdades existenciais. Morrer antes da morte física significa entregar-se à transitoriedade da vida, desapegar-se do ego, dos desejos e da ilusão de permanência. É um ensaio da alma diante do inevitável, um treino para o último suspiro.
Os monges budistas nos ensinam que, no instante da partida, a mente deve ser direcionada. Para onde ela se volta, ali estará a semente do renascimento ou da dissolução. Dizem que um filme passa diante de nossos olhos: cenas da vida, momentos congelados no tempo, reaparecem como se buscassem sentido ou redenção. Esse filme não é apenas memória, mas testemunho. E o que ele testemunha?
Se a vida foi marcada por dor causada, egoísmo e indiferença, as imagens que surgem serão como espelhos incômodos. Se, ao contrário, foi vivida com compaixão, honestidade e entrega, talvez revelem a paz de quem cumpriu o que veio cumprir. Mas seria esse filme o julgamento em si? Estaria o tribunal de nossa mente conectado aos julgamentos pregados por tantas tradições religiosas — o Juízo Final cristão, o karma do hinduísmo, o Bardo do Livro Tibetano dos Mortos?
A jornada pós-morte, segundo o Bardo Thödol (Livro Tibetano dos Mortos), é repleta de paisagens simbólicas, entidades e provações. A alma se depara com visões aterradoras e sublimes — reflexos de si mesma. Não há algo que venha de fora: tudo o que se vê, sente e teme, é criação da mente. Julgamento, portanto, seria uma consequência da clareza ou confusão mental que carregamos.
No cristianismo, há o Juízo Final, onde os justos seriam salvos e os ímpios condenados. Já no tribunal humano, a justiça se baseia em evidências e consequências. Mas será que, ao nos aproximarmos da morte com uma mente serena e voltada ao bem, escapamos desse julgamento — não por suborno espiritual, mas por já termos nos julgado, com lucidez, em vida?
E se aquele que viveu em desarmonia, causou dor e carregou culpa, já se condena antes mesmo de partir? Seria a própria mente — não um Deus externo — o carrasco? Afinal, talvez o inferno seja esse tribunal interno e incessante onde nenhuma mentira escapa e todo erro retorna.
Viver, então, seria preparar-se para esse último exame. Mas há uma armadilha aqui: se a bondade for praticada apenas para receber uma recompensa — um céu, um renascimento melhor, ou mesmo a tranquilidade final — não estaríamos sendo, novamente, movidos pelo ego?
A verdadeira virtude talvez resida, no bem feito sem intenção de mérito. Uma vida de entrega, amor e consciência não como moeda de troca, mas como expressão natural da liberdade de ser.
No entanto, como pensar livremente? Desde o nascimento somos moldados por crenças, doutrinas, regras. A família nos ensina um modo de ver o mundo; a religião, um sentido para ele; a sociedade, uma função dentro dele. Somos peças encaixadas em sistemas que nos dizem o que é certo, errado, sagrado ou profano.
Romper com esses padrões, não significa necessariamente negá-los, mas compreendê-los e escolher — com consciência — o que ressoa com nossa essência. O pensamento livre nasce da dúvida, da escuta interior, do silêncio que nos permite ouvir o que há por trás das vozes externas.
“Morra antes de morrer”, então, é também um convite a renascer. Morrer para os condicionamentos, para os medos herdados, para o julgamento automático. E viver, por fim, como se cada ato fosse o último. Não por desespero, mas por reverência à única certeza: de que tudo passa, inclusive nós.
Artigo: Irmão Barbosa.
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Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
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