Por que temos 12 apóstolos e apenas 4 evangelhos?

Por que temos 12 apóstolos e apenas 4 evangelhos?

A tradição cristã preserva um paradoxo inquietante: doze apóstolos caminharam com Jesus, mas apenas quatro evangelhos foram canonizados. Doze testemunhas da vida do Messias — cada uma com sua história, sua percepção, sua intimidade com o Verbo encarnado.

Ainda assim, a história que chegou até nós é contada por apenas quatro. E desses quatro, nem todos conviveram com o Cristo.

Mateus, Marcos, Lucas e João: nomes que ecoam nas igrejas há séculos. Mas, ao olhar com atenção, percebemos que desses quatro, apenas Mateus e João — tradicionalmente identificados como apóstolos — teriam caminhado ao lado de Jesus.

Marcos teria sido discípulo de Pedro; Lucas, um companheiro de Paulo, que sequer conheceu Jesus em vida. Assim, a maior parte dos evangelhos canônicos foi escrita por mãos que não tocaram diretamente o Nazareno.

Relatos de segunda mão, ecos de vozes que ouviram outras vozes. E isso nos leva a uma pergunta incômoda: por que foram essas as narrativas escolhidas?

Não é apenas a quantidade que intriga, mas a origem e a seleção. O Concílio de Niceia, em 325 d.C., desempenha aqui um papel central. Mais do que um encontro teológico, foi um marco político e ideológico.

Ali, os líderes da Igreja, sob influência do imperador Constantino, decidiram não apenas sobre dogmas, mas sobre quais textos seriam lembrados — e quais seriam esquecidos. Os evangelhos de Tomé, Filipe, Maria Madalena e tantos outros, possivelmente ligados a apóstolos que viveram e respiraram ao lado de Jesus, foram excluídos, considerados apócrifos, heréticos, inconvenientes.

Ironicamente, os relatos mais próximos do Cristo histórico foram rejeitados, enquanto versões mais distantes, elaboradas anos depois por autores que jamais viram Jesus com os próprios olhos, foram elevadas à condição de sagradas. Isso não desqualifica a fé, mas lança luz sobre o fato de que ela nos foi entregue através de filtros humanos — filtros com intenções, limites e preferências.

Será que o objetivo era preservar a verdade ou moldá-la?

Talvez o número quatro tenha sido escolhido para oferecer uma sensação de equilíbrio, de ordem: os quatro ventos, os quatro cantos do mundo, os quatro pilares do firmamento espiritual.

Mas essa harmonia aparente esconde o silêncio de vozes suprimidas, de experiências vividas por apóstolos que, apesar de sua proximidade com Jesus, não tiveram suas versões incluídas na narrativa oficial.

E então surge a pergunta mais filosófica de todas: se a fé se baseia na verdade, por que temer tantos relatos? Por que limitar a memória de um acontecimento que foi, acima de tudo, humano antes de ser dogmático?

Talvez a resposta não esteja nos evangelhos que lemos, mas naqueles que foram proibidos de ser escritos.

Porque a fé é profunda — mas a história da fé, esta sim, é moldada por homens. E os homens escolhem o que será lembrado. O que será esquecido. O que será chamado de verdade — e o que será condenado ao silêncio.

E talvez, nesse silêncio, resida uma parte essencial da mensagem que Jesus tentou deixar.

Artigo: Irmão Barbosa.


+ artigos, acesse: https://toleran.org
Este Artigo faz parte do Livro de Toleran. O Livro do Tolerâncialismo.
Saiba + sobre o Tolerâncialismo:

O que é o Tolerâncialismo? – Toleran o Livro do Tolerâncialismo

O que é o Tolerâncialismo?

O que é o Tolerâncialismo Movimento filosófico que propõe a união de religiosos e irreligiosos, a partir da amizade entre as pessoas, tendo a religião e a irreligião como algo secundário. A investigação nos vales das religiões, filosofia e ciências deve ser a busca de todo tolerancialista. Primeiramente, deve ser celebrada a amizade entre as … Continue lendo O que é o Tolerâncialismo?